A festa promovida pelo Professor e DJ (ou tocador de boa música - como ele prefere ser chamado) Alexei Ramos promete ser Excelente. Fica aqui minha dica pra esse fim de semana.
(entrevista realizada no Ballace 2009 para o jornal Falando de Dança)
DVN>>> Entrevistamos o professor Jaime Arôxa, renomado professor e Coreógrafo brasileiro, dentre outras atividades, famoso pelas atividades junto a novelas, filmes, como jurado de programas de televisão, requisitado nacional e internacionalmente para cursos e workshops Brasil afora, e ministrando palestras e oficinas pela Primeira vez no Ballace, em 2009. Quais eram as tuas expectativas com o evento? o que você encontrou aqui era o que você esperava?
JA>>> Nos eventos e festivais de dança, você já sabe que vai encontrar um cenário diferente de quando você vai num curso ou workshop especificamente sobre dança de salão. Esse é um festival múltiplo, com todas as modalidades e expressões de dança e a dança de salão é mais uma modalidade junto com as outras. Então, quando é assim, eu já não espero uma quantidade muito expressiva de alunos, sei que não terei 100, 200, 300 alunos. Mas vieram muitos professores fazer aula comigo... então, se eu falo para 10 casais de professores, eu sei que estou falando com mil alunos, porque eu tou passando vai ser repassado pra muito mais pessoas. Por isso eu vejo como uma coisa fundamental para mim estar nesses festivais múltiplos. Ainda mais o Ballace 2009, que é onde a gente encontra o pessoal de Camaçari, de Salvador, de Feira de Santana... o pessoal Bahia de maneira geral, que é uma turma que não tenho muito contato normalmente, porque tem pouco evento de dança de salão. Tá sendo muito importante, porque eu tou reatando alguns laços que tinham se perdido... eu tou gostando muito.
DVN>>> Você declarou durante a palestra que sempre gosta de voltar ao Nordeste. Você acha que têm voltado pouco aqui depois que saiu?
JA>>> Eu sou Nordestino cara... eu tenho uma defesa do Nordeste constante na minha cabeça, na minha mente. Sempre que venho aqui é uma alegria enorme. Fico muito contente com essa energia daqui... é muito bom. Sou Nordestino.
DVN>>> Você desenvolveu um método próprio de ensino das danças de salão quem vêm cada dia mais influenciando, quando não sendo mesmo copiado por muitos professores pelo Brasil afora. Como Você encara ser influência para um sem-número de apaixonados por Danças de Salão?
JA>>> Eu me sinto com muita responsabilidade. Responsabilidade de fazer uma coisa que seja correta. Uma coisa que não seja em cima da minha vaidade ou do meu ego, mas de coisas que não são frutos de minha cabeça, e sim das minhas experiências, dos meus estudos... fundamentos que não são da minha cabeça, mas que são da natureza das coisas. Eu sou uma ferramenta, um instrumento... se eu sou reconhecido como instrumento eficaz, que bom isso, pra mim é uma honra e orgulho... mas isso nunca vai mexer com minha inteligência ou com minha vaidade.
DVN>>> A gente acabou de sair de uma oficina de Tango que você ministrou. Dava pra perceber a empolgação do pessoal com sua aula. Você é conhecido também como o cara que incorporou ao samba de gafieira muitos movimentos que são característicos do tango. Como é que você enxerga isso hoje? Esse sincretismo entre os ritmos? é algo muito exagerado? é positivo, é negativo?
JA>>> É verdade... é verdade. Eu acho muito positivo... eu acho que tem mais é que misturar mesmo, porque é misturando que você vai evoluindo as danças. Acho que tem que guardar algumas coisas, alguns limites. A mistura sempre será bem-vinda, desde que não se perca o caráter de cada dança.
DVN>>> Falando em referências de dança, recentemente perdemos um mito da Dança de Salão Brasileira, que foi a Maria Antonieta. Quais foram as influências dela na sua carreira?
JA>>> Ela foi minha mestra, cara... minha grande mestra. Foi a mulher que me ensinou o que sei de dança. Uma das pessoas que me ensinou a arte de dançar. Vai ser uma luz eterna brilhando na constelação da dança. Minha mãe da dança.
DVN>>>Pra encerrar essa pequena entrevista, queria que você nos dissesse o que é a dança pra você. O que ela significa na sua vida?
JA>>> É uma missão. É o sentido da minha vida. É minha maior bandeira. É muita coisa na minha vida... meu trabalho, minha realização, meus sonhos... tudo que muita gente procura em muitos lugares, eu encontro tudo na dança.
DVN>>> Bom... esperamos encontrar você aqui de novo no ano que vem e desejamos ainda mais sucesso na tua jornada.
JA>>> Valeu... eu tou correndo porque já já começa outra oficina e eu tou morrendo de sede, mas queria deixar um grande abraço pro pessoal do Falando de Dança, tá?
Quem eu sou? Sou aquilo que minhas palavras, ainda que distantes, causam ao teu coração. Sou tudo que treme em teu corpo sempre que o vento sussurra meu nome em tua nuca. Eu sou o teu descaso ou teu orgulho; empedrado, emperrado, errado. Sou o que fazes quando tens medo de não fazer nada. Sou o que temes quando teus medos já não tem importância. Sou o que amas quando o amor já não te basta nem te alimenta. Um pedaço distante de uma história desmembrada, aleijada, amputada. Sou um resto de calma no final da esperança; e uma ponta de desespero no começo da alegria. Quem eu sou? Isopor na ventania. Macarrão sem molho. Maestro sem música. Pedra no sapato. Último gole, última dança, último beijo, resto de rastro. Um vento calmo cuja a alma calma se calou. Sou a tua vontade de saber quem sou.
texto publicado na edição de agosto do Jornal "Plantão Médico" FSA/BA 2009
Algumas pessoas defendem que a dança surgiu antes mesmo que as linguagens mais rudimentares. O Homem teria dançado para expressar emoções e sentimentos que sequer ele mesmo compreendia, dessa forma, movimentos eram usados para expressar para os companheiros aquilo que os sons não eram capazes de fazê-lo. Outras teorias afirmam que a dança surgiu única e exclusivamente para que a música pudesse ser traduzida em movimentos; sendo todas as outras funcionalidades da dança conseqüências desta primeira. Sobre essa polêmica de origens, nada iremos falar. Isso não nos interessa. O fato é que as danças são parte da história da humanidade. Sem as danças, algo importante do ser humano não existiria. Percorrendo alguns trabalhos antropológicos sobre diversas culturas, podemos sem muito esforço, perceber que o homem dançou quando entrou em guerra, quando pediu chuva, quando agradeceu a colheita, quando estava feliz, quando estava triste, quando se despediu de quem foi embora, quando comemorava um nascimento, para lembrar de quem morreu. Ao redor do mundo, ainda hoje, o ser humano dança para celebrar, dança para se lamentar, dança para se divertir, dança para ter saúde. E se ao invés de nós simplesmente vivêssemos as nossas vidas, nós nos permitíssemos à loucura ou sabedoria de dançá-la? Roger Garaudy, filósofo Francês defendeu esta idéia no seu livro “Dançar a vida”, que, entre outros muitos temas, trata também da saúde do corpo que dança.
A relação entre Dança e Saúde muitas vezes aparece no imaginário coletivo como óbvia; assim como diversas atividades físicas são imediatamente ligadas ao ideal de comportamento saudável pelo simples fato de serem, nominalmente, “Atividades Físicas”, alicerçados em tratados fisiológicos que assim as classificam. Também a teoria Psicogenética estende sobre a Dança um rótulo: esquema de conhecimentos que fornecem às crianças uma gama de estímulos cognitivos ricos e proveitosos. Confirmando cientificamente que as crianças que dançam:
• Adquirem maior equilíbrio e noção de espaço-tempo (trabalham o seu próprio ritmo), • Desenvolvem esquemas motores mais rapidamente (crescem capazes de realizar movimentos mais complexos com mais facilidade); • Colocam seus próprios esquemas de conhecimento em confronto com o de outras crianças (interagem com outras crianças aprendendo mais cedo a estabelecer contatos sociais).
Como atividade física que é, a dança possui algumas características que a tornam um excelente comportamento saudável:
• Coordenação Motora: ampla (quando você consegue coordenar movimentos de perna e braço, por exemplo) e fina (quando você consegue coordenar movimentos de pequenos seguimentos como cintura e ombro); • Resistência Cardio-Respiratória: A maioria das modalidades de dança têm um componente aeróbico marcante, possibilitando melhorias no sistema cardíaco e respiratório e privilegiando a quebra de lipídios como fonte de energia; • Consciência Corporal: TODAS as modalidades de dança possibilitam uma maior compreensão de como está o seu corpo e como ele se localiza no espaço onde você se encontra; • Resistência Muscular Localizada: Seqüências de repetição durante o aprendizado dos passos funcionam como um verdadeiro trabalho de RML, melhorando o tônus muscular e otimizando o gasto de energia do corpo durante o exercício aeróbio.
Assim, pela Fisiologia e pela Psicogenética, está “cientificamente provado” que “Dançar faz bem” e sobram artigos científicos no “Scholar Google” para dizer isso. Porém, mais do que uma atividade física, a dança é uma ARTE. E, como arte, as danças configuram-se em uma poderosa linguagem. A dança é “expressão através dos movimentos do corpo organizado em seqüências significativas de experiências que transcendem o poder das palavras e da mímica” (Garaudy, 1980 p. 24). Através do corpo que dança, pode-se expressar aquilo que nós não conseguimos por meio das outras linguagens, sejam comuns ou artísticas.
Acredito que a maior vantagem da Dança enquanto componente de uma forma saudável de viver não encontra esteio na fisiologia, mas na filosofia. Platão recomendava o teatro, a música e a dança para que fossem curadas todas as enfermidades da alma através do corpo. A dança, que ao lado da música e do teatro formavam as Ates Cênicas da antiguidade, deslocou-se para uma esfera própria que não a do teatro. Como arte contemporânea, a dança se manifesta através dos signos do movimento, com ou sem a presença da música. A dança, como forma de linguagem, atinge quem a pratica e quem a assiste de formas distintas.
Dançar fornece ao corpo que dança uma nova perspectiva de “eu”. Quando “eu” danço, posso estar olhando de dentro para o ambiente que dança ao meu redor. Posso olhar para o “eu” que dança e entender o que sinto quando realizo os movimentos que desejo realizar. Intentar movimentos que até então “eu” achava que não seria capaz de realizar, e conseguir realizá-los através da persistência em detrimento da desistência. Percebe-se, dançando, que se conhece muito pouco sobre si mesmo e sobre os que nos rodeiam. Para além das friezas científicas, quem dança tem um comportamento saudável porque:
• Relaciona-se eticamente com outras pessoas: seja em danças individuais ou em danças a dois a presença do corpo do outro sempre implicará em alguma mudança do comportamento do seu próprio corpo, para que esta outra presença seja respeitada; • Percebe que o seu próprio corpo lhe é, em parte, desconhecido; e que é gostoso experimentá-lo por meio da dança (pode ser que uma tal de “adrenalina” tenha alguma coisa a ver com isso); • Compreende que suas dificuldades em realizar coisas devem servir de combustível para realizá-las, e não ceder ao comodismo e aceitar uma suposta incapacidade; • Consegue expressar aquilo que palavras e mímicas não conseguem; • É mais feliz.
Se quiserem minha dica para uma vida saudável, seja você novo ou idoso; homem ou mulher; erudito, chato ou hiper-ativo; a sugestão é muito simples e direta: DANCE SEMPRE! Dance sua vida e viva cada dança.
Sobre qual modalidade escolher, não há muito que falar... Experimente até achar a que mais lhe apetece, e tenha uma vida saudável, longa e feliz. _________________________________________________ Referências: GARAUDY, R. Dançar a vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. Google Acadêmico BetaVersion (www.scholar.google.com) _________________________________________________ Duda Vila Nova www.twitter.com/dudavilanova